Jovens - [ 22/6/2006 às 9h46h00 AM ]
Em busca de miragens
por: Tonho
O mundo está cheio de miragens. O grande perigo é desviarmos do estreito caminho que leva ao Reino de justiça, amor e esperança para nos arrastarmos em busca da ilusão de conforto, felicidade e prazer.
O risco é grande, pois a situação do deserto é desesperadora. Muitos temos o espírito afetado depois de experimentar demasiada solidão, injustiça, depressão, pobreza, opressão e outros sofrimentos. Depois de apanhar tanto, a alma clama por qualquer saída ou alívio e, nesse afã, começamos a ver miragens.

Felicidade química
A estrada que nos leva à miragem é larga e tem muitas vias. Talvez a mais ilustrativa seja o grande problema das drogas. “Segundo estimativa das Nações Unidas, o comércio internacional apenas de drogas ilícitas movimenta cerca de U$ 400 milhões por ano, ou seja, cerca de 8% do fluxo mundial de comércio”. Além delas, existe um número de drogas legais, como o Prozac, Paxil e outras. Esse mercado também movimenta bilhões de dólares. A motivação e a promessa de todas essas drogas é basicamente a mesma: fuga do sofrimento através de uma pílula da felicidade.
A disposição de declarar uma guerra química contra nosso cérebro e abrir mão da nossa personalidade integral para conseguir alívio mostra o imenso desespero que o ser humano se encontra. O prazer é melhor que o ser.

A escolha pelo sofrimento
Talvez alguém argumente: “você só fala isso porque nunca sofreu forte depressão”. Isso não é verdade. Aliás, tive meus anos gastos em um divã. Nas épocas mais escuras ler Kierkegaard me trazia esperança (o pouco que compreendia me ajudava a continuar). Mas eis o paradoxo, possivelmente Kierkegaard só conseguiu escrever os textos que tanto me confortavam por conta de sofrer profunda depressão. O que aconteceria se o filósofo dinamarquês tivesse escolhido fugir através do ópio ou do álcool? (na época não existia crack e Prozac).
Sou grato pelo altruísmo dele em escolher não fugir. Indiretamente, sofrendo e compartilhando meu sofrimento, ele escolheu me amar. Sempre que fugimos, estamos virando as costas para as pessoas. É enfrentando as dores que crescemos, que nos tornamos capazes de amar o próximo.
Jesus, quando passou pelo deserto, também poderia ter alívio imediato. Ele poderia comer as pedras transformadas em pão. Ele poderia entregar sua vida ao diabo, e o mundo seria dele. Mas ele preferiu o sofrimento, ele preferiu o deserto real à ilusão do topo do mundo.

Viajando para fora da realidade
As drogas ilustram bem o processo, mas não limitam as vias que nos levam à miragem. Creio que elas sejam incontáveis. Mas há aquelas mais populares… a busca da fama, a obsessão pelo prazer, a compulsão pelo consumo, a excitação religiosa, entre outras. Todas com a mesma promessa satânica: “Me venda sua alma (personalidade) e lhe farei feliz”. Somos bombardeados diariamente com essas miragens através da mídia.
Dos meios de mídia, o que mais nos afeta é a televisão. Fabiana Piccinin, professora do curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz, afirma que “o brasileiro assiste em média seis horas de televisão por dia”. Outros autores falam de 3,5 a 4 horas diárias. Levando em conta que o brasileiro durma e trabalhe 8 horas diárias, do restante de sua vida, cerca de metade é gasto vendo televisão.
Abrimos mão de viver nossa vida para viver fantasias da novela ou o cotidiano dos participantes do Big Brother. Voluntariamente entregamos nossas mentes e desejos para a manipulação alheia. O psicanalista Mário Quilici declara que hoje a televisão passou a ser “o sistema nervoso da população… é feita uma destruição da barragem nervosa entre a realidade do indivíduo e a realidade do mundo e nós então, tornamo-nos o mundo porque queremos pertencer a algum lugar e o mundo anunciado pela propaganda, é esse lugar [a miragem]. Somos convidados a esquecer nossos próprios valores e a adotar como legítimos, os valores estabelecidos pela mídia. Assim nós passamos a viver o sonho e os objetivos do mundo”.

Humanos vegetando
A imagem que me vem à cabeça é do filme Matrix. No futuro dominado pelas máquinas, existem “plantações” de seres humanos. Somos cultivados em cápsulas e usados como fonte de energia para robôs gigantes. Somos apascentados através de um programa de computador ligado ao nosso cérebro. O programa cria imagens em nossa mente, gerando a ilusão que estamos vivendo, quando apenas hibernamos.
A imagem é perfeita parábola do presente. O mundo está nas mãos de uma minoria com apenas resquícios de alma, ética e coração – robôs. O restante dos homens existe para, trabalhando e consumindo, gerar riqueza para esses poucos. Quando não estão trabalhando, descansando ou consumindo, ele é conectado à televisão. Assim o programa é reforçado: trabalhe mais para você consumir mais e assim ser mais feliz.
Os que não seguem o programa são excluídos. Aqueles que pensam diferente, aqueles que não trabalham por dinheiro, aqueles que não podem consumir. Aí da mulher que não usa as roupas da moda, que não tem a sorte ou o dinheiro para ter cabelos lisos, peitos fartos, cintura fina e pele sem rugas. Ela é feia. E, na sociedade programada, ser feia é não ter valor feminino. As mulheres se submetem a esse programa machista e assim o reforçam. A mulher que aceita os padrões masculinos é cúmplice da escravidão de suas irmãs. É a busca pela miragem da aceitação estética.
Pobre homem que não é um atleta sexual. Fazer amor não é mais uma expressão de cumplicidade e intimidade extrema. A mídia ensina que é uma competição por performance.
Mas se você não é capaz de gerar o máximo de prazer, não fique triste, consuma Viagra. Se você tem baixa auto-estima, compre um carro novo. Mas se você não tem dinheiro, não se preocupe, jogue na loteria, escreva pro Sílvio Santos, seja um BBB! Corra atrás do seu (!) sonho - até nossos sonhos foram padronizados.

Há outras miragens. Compramos uma garrafa de refrigerantes que sugere nos trazer felicidade – “viva o que é bom” (propaganda da Coca-Cola). A lavagem cerebral é compulsória. Se você desligar rádio e tv, ao sair de casa lhe enfiarão goela a baixo inúmeras mensagens contidas nos outdoors pela cidade. As influências são tantas que é impossível determinar todas as causas que nos levam a escolher uma roupa para usar, um chocolate para comer ou a pessoa com quem vamos nos casar.

Acorda!
Precisamos de libertação. Assim como no mundo de Matrix, precisamos acordar e romper com o sistema de manipulação. Quero viver, não vegetar! Mais uma vez, a libertação está no Reino, está próxima. Mas é preciso sacrifício, é necessário que esse ser programado para o egoísmo, consumismo e hedonismo morra. A vida mais excelente está disponível no madeiro. Vendemos nossa alma ao diabo, mas ela foi comprada de volta a preço de sangue. Podemos resgatá-la, podemos ser senhores de nós mesmos e, quando formos, começa a revolução



Tonho trabalha servindo a Igreja Perseguida no mundo e é o autor do blog Articulando.




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